Brincar

BrincarBrincar é um acto social, um caminho para a comunicação para consigo próprio e para com os outros, experimentando e compreendendo o mundo, construindo e testando os seus sentimentos, inseguranças e medos.

A descoberta de que as experiências da primeira infância moldam profundamente o cérebro das crianças tem vindo a alterar a forma como encaramos as necessidades infantis.

O que acontece?

BrincarAlgumas células do cérebro controlam os batimentos cardíacos, a respiração e os reflexos que regulam outras funções básicas imprescindíveis para a sobrevivência. Estas células coligam-se entre si providenciando a sua funcionalidade.

Quando uma criança atinge os três anos, o cérebro atingiu mil bilhões de ligações (cerca do dobro da que os adultos possuem) e as restantes ligações estão à espera de ser estabelecidas.

ESTUDOS SUCESSIVOS TÊM DEMONSTRADO QUE O PERÍODO MAIS PRODUTIVO DESTAS LIGAÇÕES VÃO DESDE O NASCIMENTO ATÉ OS 10 ANOS.

Nos últimos anos a ciência tem conseguido demonstrar muitas coisas que já sabíamos intuitivamente e uma delas é o facto de que a estimulação que os bebés e as crianças recebem, determinam as ligações que se estabelecem. Inversamente, uma ligação que nunca é usada tende a se extinguir.

UMA CRIANÇA COM QUEM RARAMENTE SE BRINQUE, SE LEIA UM HISTÓRIA NOS PRIMEIROS ANOS DE VIDA, PODE APRESENTAR DIFICULDADES AO NÍVEL SOCIAL, OU DA LINGUAGEM À MEDIDA QUE VAI CRESCENDO.

É fundamental a relação nas brincadeiras com uma pessoa significativa pois o desenvolvimento infantil desenvolve-se através de experiências existenciais. Estudos nesta área dizem-nos que, a interacção estimula o desenvolvimento intelectual principalmente se estiver associado o emocional e o social. Paralelamente, quando está presente o afecto, a alegria e a motivação, o desenvolvimento parece se propagar por muitas zonas do cérebro, nomeadamente nos dois hemisférios.

INVESTIGADORES CONSIDERAM QUE, SE FOSSE POSSÍVEL EMITIR IMAGENS CEREBRAIS QUANDO OS BEBÉS ESTIVESSEM A BRINCAR ( QUANDO EMOCIONALMENTE INTERESSADOS E ENVOLVIDOS), VERÍAMOS MUITAS ZONAS A SE ILUMINAR.

Que brinquedos oferecer?

CADA ETAPA TEM O SEU BRINQUEDO CARACTERÍSTICO QUE TRADUZ A SITUAÇÃO FÍSICA E PSICOLÓGICA DA CRIANÇA.

Inicialmente começamos a sugerir o próprio DEDO.

BrincarObservem um recém-nascido: ao encontrar o seu dedinho e colocá-lo na boca ele reorganiza-se, acalma-se e mostra aos pais o quanto já poderá ser independente.

O seu corpo associado também ao da MÃE é o seu primeiro brinquedo.

O contacto é pele a pele e pele e boca mostrando uma nítida associação com a amamentação. Aprende a tocar e a ser tocado, estabelecendo os seus próprios limites sendo pois o começo da sua própria identidade (eu...e os outros)

DEPOIS DA EXPLORAÇÃO CORPORAL PODEMOS SUGERIR O BRINQUEDO PROPRIAMENTE DITO.

Objectos com cores vivas, em movimento, com sons suaves tolerados pela criança (que não os irrite em vez de acalmar) podem ser oferecidos à criança.

Um pouco mais tarde, um coelhinho macio poderá substituir a mãe quando esta está ausente. Para esse objecto irá transferir as suas emoções agressivas e de amor, servindo de vector de experimentação dessas mesmas emoções e ao mesmo tempo de pilar de segurança.

Posteriormente estes "objectos de transição" serão substituídos por materiais que correspondem ao seu próprio desenvolvimento físico a sua crescente curiosidade pelo meio e ao mesmo tempo o ganho de autonomia em especial, proporcionado pela maior agilidade de movimento a criança.

Acham muita graça em "abrir, fechar, esvaziar, misturar e ajustar" coisas.

O PERIGO ESPREITA E A SUA SEGURANÇA FÍSICA DEVE SER MUITO BEM CONSIDERADA!

A partir de UM ANO E MEIO, a criança com o controlo do chichi e do cocó, leva a alterações psicológicas importantes. Apercebe-se que pode se controlar a partir de comportamentos próprios.

Logo, os materiais de construção e puzzles com cerca de três peças, oferecem a oportunidade tanto de construir como de destruir, conforme a sua vontade.

A experiência das texturas associados à construção são uma oportunidade a considerar nomeadamente a areia, a argila, a água, sempre com controlo do adulto por perto.

Comportamentos de imitação estão também presentes em especial do pai e da mãe.

A partir dos TRÊS ANOS, a criança prefere brinquedos que lhe permitam experimentar as suas tendências e preferências.

De considerar, no entanto, que as atitudes e brincadeiras, não deverão ser nem reforçadas, nem proibidas com diferenciação de brinquedos exclusivos para menino ou menina, podendo se criar um risco acrescido nas expectativas na criança, quanto a um papel sexual, impedindo-a que se desenvolva de uma maneira natural.

A CRIANÇA AO BRINCAR, ESTÁ APENAS RECONHECENDO, DESCOBRINDO, APRENDENDO, CARACTERÍSTICA NATA DO SEU DESENVOLVIMENTO, SEJA COM UMA BONECA OU COM UMA BOLA.

As brincadeiras que implicam o faz de conta, ou a imaginação, e que envolvem dramas humanos (bonecos a abraçarem-se ou a lutar), ajudam a criança a aprender e a relacionar-se com a imagem (ou uma representação com um desejo), e usar depois essa imagem para pensar. Ajuda-a a criar relações de empatia com os outros e a corresponder expectativas.

Quando as crianças estão no seu mundo de fantasia é desaconselhável trazê-las à realidade.

MUITOS PAIS QUESTIONAM SOBRE O FACTO DE OFERECER BRINQUEDOS (à partida) AGRESSIVOS, TAL COMO ARMAS, RECEANDO COMPORTAMENTOS AGRESSIVOS DA CRIANÇA.

Em especial por volta dos 4, 5 ANOS é habitual, em especial nos rapazes, este sentimento agressivo. Proibi-los, não os faz desaparecer. Faz com que as crianças construam as suas próprias armas, com paus, rolos de papel ou com o próprio dedo, vocalizando estalos pela boca.

A maioria dos autores considera que, é no entanto melhor que sejam eles a construir as suas próprias armas, levando-os a ser mais criativos, usando a sua imaginação e ao mesmo tempo, explorando as suas próprias fantasias em vez de brincarem com fantasias dos adultos (que desenham armas de brincar cada vez mais sofisticadas...e caras).

Se os pais puderem deixar os filhos experimentar seus sentimentos de agressividade em segurança, através de lutas a brincar e aprenderem a identificá-los e a falar por eles, os filhos estarão melhor preparados para lidar com tais sentimentos.

À medida que se aproxima da IDADE ESCOLAR, a satisfação do brincar cede à satisfação do concluir algo, ou seja, a criança sente prazer não na actividade por ela mesma, mas sim em seu resultado.

As pinturas, livros didácticos, novamente as construções e puzzles (agora mais elaboradas) entre outros, poderão ser uma boa aposta.

Por volta dos 10 ANOS ou às vezes ANTES, as colecções, os mini laboratórios, material de pesca, prendas domésticas são exemplos possíveis.

ACIMA DE TUDO HÁ QUE ADAPTAR O BRINQUEDO AO TEMPERAMENTO DA CRIANÇA, ao INTERESSE que demonstra e assegurar-se que resiste à experimentação e durabilidade.

Há também que se certificar da sua SEGURANÇA (materiais tóxicos são perigosos, assim como pequenas em idades impróprias) e o excesso de ruído.

A criança e as contínuas exigências de adaptação a que está submetida no seu dia-a-dia, faz com que esteja exposta a ansiedades. Como tal, o brinquedo será um meio privilegiado de comunicação de que irá dispor para se relacionar.

Brincando, ela revela-se aos outros e a si própria. O brincar será a ponte que a permite ligar ao mundo externo e interno, à realidade objectiva e à fantasia.

Vera Lúcia Pestana
Enfermeira especialista saúde infantil e pediatria

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