O Exercício da Paternidade e a Participação no Aleitamento Materno

O Exercício da Paternidade e a Participação no Aleitamento Materno

 

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 A grande percentagem das mulheres deseja amamentar os seus filhos, porém o que parece ser um acto simples, natural e instintivo, é também um processo comportamental aprendido, que requer cada vez mais incentivo, aprendizagem, treino, apoio e orientação ajustados às mães e aos casais.

A prevalência do aleitamento materno pode ser afectada negativamente por diversos factores, entre os quais destacamos, a falsa noção da emancipação feminina (considerando o aleitamento materno como um entrave à liberdade da mulher); a modificação dos comportamentos sexuais e o simbolismo erótico dos seios; o pudor de amamentar em público e a ansiedade associada a medos não fundamentados de impossibilidade de lactação.

     Relativamente ao papel do homem também têm surgido muitas modificações ao longo dos tempos. Estes eram vistos num modelo “patriarcal” como: o homem racional, activo no público, na produção da ciência e da cultura, provedor, sexualmente “irresponsável”, poderoso, universalizado na sua dominação. Por outro lado a mulher era percepcionada como emotiva, voltada para o mundo privado da reprodução dos filhos, cuidando das relações de afecto, sexualmente passiva, dependente, obediente, universalizada na sua opressão (Garcia 2001; Silva, 1990).

     O homem contemporâneo, na luta pela conquista de satisfação individual, deixa de atribuir valor às convenções que sempre lhe obstaram. Deste modo, a família moderna é dominada pela dessacralização dos valores antigos e pela procura de melhor qualidade nas relações interpessoais. No entanto, estas mudanças não significam que a família esteja a desaparecer ou a perder as suas funções, pelo contrário, apontam para a estabilização de um novo tipo de família, mais especializada do que antes (Silva, 2002).

 

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Assim, também algumas destas mudanças são observadas em relação aos cuidados com os filhos. Para ser um “bom” pai e ser uma boa mãe é necessário amar, ser companheiro, ser amigo, gostar de ter um filho e ter afecto por ele.

 Neste sentido, o homem contemporâneo deverá trabalhar a sua construção reflexiva, no que diz respeito à determinação da sua paternidade (Schneider et al., 1997). Para além disso, os autores anteriores analisam as diferentes formas como as culturas vêem a relação dos pais com os filhos e demonstram que a família possui um carácter cultural, apoiada em fundamentos biológicos relacionados com a reprodução e o aleitamento materno.

Devido ao carácter biológico da gravidez, na maioria das culturas, a mulher é a principal responsável pelos cuidados com os filhos. Contudo, um estudo realizado por Costa (2005), apontou que o companheiro tem uma forte influência no período da amamentação por acreditar que o leite materno é o melhor alimento para o bebé, por considerar importante o cuidado dispensado ao seu filho nessa etapa, por ser mais económico e, incentivando por isso a sua companheira a amamentar.

O envolvimento emocional do pai na gravidez pode ser compreendido através da sua participação nas ecografias, nas consultas pré-natais, nos preparativos para a chegada do bebé, no apoio emocional prestado à mulher, na procura de contacto com o bebé, bem como nas preocupações e actividades destes pais (Piccini et al., 2004).

Por outro lado, de acordo com Maldonado et al. (1983), alguns dos homens só se tornam pais após o nascimento do bebé. Para Carvalho (2003), a participação dos pais durante o parto indica transformações significativas na relação de género, na compreensão do parto e de paternidade.

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A entrada do homem na sala de parto surge na década de 70, em famílias nucleares urbanas em países desenvolvidos, com o objectivo de uma maior valorização da mulher, da recuperação da afectividade e do resgate da referência familiar, perdidos com a passagem do parto domiciliar para a assistência hospitalar. Por outro lado, no que se refere ao aleitamento materno, na maioria das culturas, os cuidados são quase que exclusivamente responsabilidade da mulher, sentindo-se o homem um mero espectador (Serafin & Lindsey, 2002).

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O papel do homem, nomeadamente do pai de família, tem actualmente emergido nas agendas das instituições internacionais e nacionais que propõem e implementam políticas públicas, como uma nova forma de promover a igualdade de géneros, como, é exemplo, o Decreto de lei nº 89/2009, de 9 de Abril, que dá possibilidade de partilhar a licença parental, a qual passa para seis meses subsidiados a 83% do salário, em que um mês é gozado pelo pai, ou cinco meses subsidiados a 100%, se, pelo menos um mês, for gozado pelo pai (trinta dias seguidos ou dois períodos de quinze dias) em exclusividade. Esta lei proporciona ainda o aumento de vinte dias úteis (dez obrigatórios e dez facultativos) para a licença por nascimento de filho (para o pai).

 O governo, com esta lei, está a promover uma melhor conciliação da vida profissional e familiar na altura crítica do nascimento das crianças, de estimular a igualdade e partilha de responsabilidades no interior da família.

O pai é o PRIMEIRO “OUTRO” que a criança vê fora do ventre materno e é esta presença que facilita à criança a passagem do mundo da família para a sociedade (Gomes, 2004).

 O seu envolvimento, nos cuidados com o bebé facilita no processo de transição para a parentalidade, trazendo consequências benéficas para o próprio homem e para o desenvolvimento das crianças (Carvalho, 2003; Garcia, 2001).

Desta forma, a participação do homem no apoio e suporte ao aleitamento materno deverá passar por:

  • Encorajar e incentivar a mulher a amamentar;

  • Ser paciente e compreensivo;

  • Manter-se tranquilo;

  • Procurar ocupar-se mais dos outros filhos (se tiver);

  • Evitar levar para casa latas de leite, biberões e chuchas;

  • Participar, sempre que possível, no momento da amamentação, pois a sua presença e carinho durante o acto de amamentar contribuem para a manutenção do vínculo afectivo entre mãe, filho e pai;

  • Cooperar nas tarefas do bebé, na medida do possível, trocando fraldas, ajudando no banho, a vestir, a embalar, etc., de forma a sentir-se útil durante o período da amamentação;

  • Manter-se sereno, pois embora o aleitamento traga muitas alegrias, traz também muitas dificuldades e cansaço, levando, por vezes, a mulher a ficar impaciente;

  • Deve ser carinhoso e compreensivo, nesta etapa de transição familiar, evitando discussões desnecessárias que prejudicam psicologicamente a “descida” do leite;

  • Ficar atento às variações do apetite sexual da mulher.

 Hoje em dia, existe a procura de um “NOVO PAI” que emerge de um modelo tradicional de paternidade, desenvolvendo sentimentos afectivos de vínculo que favorecem a construção do tríade pai-mãe-filho(s).

Assim, o homem contemporâneo afasta-se do modelo de pai rígido, severo e distante, por compartilhar da experiência que é vivida no corpo da sua companheira. Esta aproximação com o filho, já estabelecida na gravidez, tem sido procurada pelos homens jovens, delineando um novo modelo parental, que busca a partilha da alegria do nascimento e das tarefas diárias do bebé (Badinter, 1985; Carvalho, 2003; Garcia, 2001).

     Apesar de todo um sistema que permite ao homem o exercício pleno da sua paternidade, pouco se sabe sobre os factores que intervêm na vivência do homem durante o aleitamento materno.

De acordo com Jablonski (1998), quando ambos os pais trabalham fora da localidade de residência, espera-se uma mudança na estrutura tradicional, havendo uma divisão de tarefas domésticas, menos tradicional e mais igualitária. Neste sentido, o pai contemporâneo não se identifica com o homem definido como reprodutor ou provedor económico, mas presente num contexto familiar estável, que lhe permita viver a paternidade, senti-la e exteriorizá-la.

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Segundo um estudo de Wolberg et al. (2004), reconhecer o papel do homem na decisão da companheira amamentar, permite avaliar o efeito de uma intervenção educativa enquanto casal e não como indivíduos distintos. Neste sentido, ambos os pais devem participar nos cuidados prestados à criança, oferecendo uma vida melhor ao filho, quer na escolha do tipo de alimentação após o nascimento, quer durante todo o processo de crescimento e desenvolvimento.

Actualmente os pais imaginam-se muito presentes, carinhosos e atenciosos, brincalhões e amigos, o que, consequentemente, os aproxima mais à criança, educando-a, dando-lhe limites e servindo de exemplo (Levandowski & Piccinini, 2006).

Observa-se nos pais contemporâneos uma maior proximidade física da criança, tornando-os mais sensíveis, mais afectuosos e favorecendo a interacção pessoal entre ambos. Estar próximo do filho e assumir as tarefas a ele inerentes não se coloca mais como uma atribuição naturalmente confiada às mães. Este contacto directo através dos cuidados com o filho, proporciona aos pais uma atracção pela troca de carinho entre pai e filho, pelo prazer de acompanhar o desenvolvimento da criança, o prazer de estar junto à criança, à comunicação entre ambos, a sensação das obrigações e responsabilidades paternas cumpridas e a percepção das respostas das crianças na interacção pai-filho (Rezende & Alonso, 1995).

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Paralelamente a estas modificações no seio da família a nível da estrutura e interacção entre os diferentes elementos, temos vindo a assistir a uma maior participação por parte do PAI COMO PESSOA SIGNIFICATIVA NA DECISÃO DE AMAMENTAR.

 Hoje sabe-se que a importância deste é maior do que aquela que se poderia imaginar. É consensual, entre vários autores, que O ENVOLVIMENTO DO PAI PROMOVE O ALEITAMENTO MATERNO E FAVORECE A SUA MANUTENÇÃO POR MUITO MAIS TEMPO, CONTRIBUINDO PARA AUMENTAR A AUTO ESTIMA E CONFIANÇA DA MÃE.

 

Elaborado por:

Lília Maria Reis Abreu

 Enfermeira Especialista na área da Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica

Docente: Universidade da Madeira _ Centro de Competência de Tecnologias da Saúde

 

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REFERÊNCIAS

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