Perturbações do Comportamento

ComportamentoSer diferente numa Sociedade muitas vezes com flexibilidade limitada (para quem por razões inerentes ao seu estado físico ou psicológico tem necessidades diferentes) é uma tarefa verdadeiramente heróica. Em primeiro lugar, pela simples razão de ser criança, isto é, de se adaptar às rápidas necessidades do seu desenvolvimento e, em segundo, de se adaptar esse desenvolvimento e ao meio em que vive de forma harmoniosa, retirando dele a energia para poder crescer e se desenvolver.

Que diferença é essa de que tanto se fala actualmente e que chamam de hiperactividade / deficit de atenção ou perturbações do comportamento?

Em traços gerais a hiperactividade, também denominada com deficit de atenção com hiperactividade (DDAH), tem uma origem biológica, provavelmente devendo-se a um sistema nervoso imaturo e hipersensível e que se encontra à mercê de todo e qualquer estímulo. A criança não é capaz de se alhear dos estímulos mais importantes e não consegue por isso, concentrar-se. O problema tem origem no cérebro envolvendo os chamados neurotransmissores, isto é, todos os estímulos são transmitidos sem haver uma prévia selecção. As descargas do sistema nervoso levam a uma actividade perfeitamente incontrolável. As causas não são conhecidas mas o contacto pré natal ou durante o parto das zonas do cérebro com drogas e venenos, como por exemplo o chumbo, situações de stress pré natal poderão estar associados. O processo de recuperação pode originar zonas hipersensíveis em torno das áreas afectadas.

Desta dificuldade de atenção podem ser exemplos bebés que passam do sono profundo para um estado de choro incontrolável (como se chorar fosse a única maneira de se controlarem). Um estímulo sonoro, junto com o toque, junto com um estímulo luminoso ou o olhar no rosto a curta distância são algumas situações em que a associação de estímulos incomoda-os imenso, reagindo imediatamente criando um ciclo vicioso. Ou seja, mais estímulos provocam um maior descontrolo no bebé e, consequentemente, maior sensação de fracasso por parte dos pais.

Por tudo isto, é importante que os profissionais de saúde estejam sensíveis e atentos, para que identifiquem estes sinais de modo a que o apoio a estas famílias se faça a tempo e horas. Trata-se duma situação que não é exclusiva de crianças hiperactivas ou com deficit de atenção mas também em bebés prematuros, em situações de subalimentação, filhos de mães com contacto com tabaco, álcool, outras drogas ou situações de stress intra uterino, entre outras variadas situações. Se houver um treino trabalhado com os pais de forma a ajudarem o seu bebé a controlar o seu sistema nervoso imaturo, de modo que o bebé aprenda a dominar-se cada vez melhor, diminuindo o deficit de atenção. No caso de existir uma lesão cerebral, a hiper reacção aos estímulos pode se prolongar durante anos. As crianças com estas alterações comportamentais substituem o choro pela actividade como modo de descarregar a agitação interior resultante dessa estimulação demasiada. Daí que a verdadeira hiperactividade não é identificada senão em época de actividade escolar, se bem que com a atenção dos pais e as avaliações dos profissionais de saúde essa detecção poderá vir mais cedo. Devo referir que apenas profissionais com larga experiência nesta área poderão fazer diagnósticos conclusivos.

A prevalência em alguns estudos, apontam para os 3% e 5% em crianças em idade escolar sendo mais comum em rapazes. Em adolescentes de 12 a 14 anos, pode ser encontrada numa prevalência de 5,8% e há ainda alguns casos de adultos registados. Estudos apontam para o facto de que poucas raparigas são verdadeiramente hiperactivas. As grandes consequências associam-se a dificuldades emocionais com repercussões nos relacionamentos, bem como um baixo desempenho escolar. Estes problemas interferem com a vida da criança, em casa e na escola e com a sua convivência com adultos e crianças. Esta actividade muitas vezes confunde-se com a forma como as crianças são educadas, o que não corresponde à verdade. Se estas crianças e famílias não forem ajudadas o seu desenvolvimento poderá estar seriamente comprometido.

Como podem devem estas crianças ser cuidadas?

Organizar um ambiente propício, uma educação especial na escola, a psicoterapia ou em alguns casos medicação prescritas por um médico perito nestas situações são muitas vertentes aconselhadas. Os pais devem explicar que a medicação serve para ajudá-lo naquilo que ele faz um esforço enorme para conseguir. Assim, estamos a estimular as tais energias que falava inicialmente para ajudá-los a se tornarem mais confiantes.

Na esfera da enfermagem a intervenção passa pela consciencialização do ambiente que envolve a criança e pelo comportamento da própria família. O clima deverá ser desprovido de excesso de estímulos e carregado de elogios justos (não a torto e a direito, pois falamos com crianças inteligentes). O mais simples comportamento positivo, como ficar sossegado durante uma breve refeição ou terminar uma tarefa fácil, deve ser elogiada. É sem dúvida um trabalho longo e difícil. O sentimento de culpa inicial é normal e a sensação de não ser bom pai ou mãe é um sentimento muito frequente nos pais

Ser pai e mãe num mundo como o nosso, é uma tarefa verdadeiramente heróica. Acreditar nas competências destas crianças é acima de tudo um direito merecido com todas as letras. Há que descobrir estratégias para serem capazes de conseguir o seu próprio auto controlo e viver o dia a dia acreditando num mundo cada vez mais sorridente.

Vera Lúcia Pestana
Enfermeira especialista Saúde Infantil e Pediátrica

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