Afectos

AFECTOS

afectos_1

"A Natureza e a afectividade interagem entre si de forma imperceptível, num dueto que acompanha o desenvolvimento." (Greenspan e Brazelton).

Desde cedo, que a qualidade dos cuidados prestados às crianças é fundamental para o seu desenvolvimento. Inerente a esse cuidado está um elemento fundamental, invisível aos olhos, mas sensível ao coração: os afectos.

De facto, a profundidade com que os pais "sentem" os seus filhos, irá sem dúvida influenciar o seu desenvolvimento.

A forma como as crianças se sentem queridas, aconchegadas e amadas, definirá quem serão, o quanto gostam de si e o quanto serão capazes de gostar dos outros.

Aquilo que a criança mais precisa, em primeiro lugar é sem dúvida, se sentir amada, sendo que em segundo lugar necessita de alguém que imponha limites à sua vontade e ao mesmo tempo a faz sentir protegida e segura.

A primeira infância (do nascimento aos três anos de vida) é simultaneamente a fase mais crítica e mais vulnerável no desenvolvimento de qualquer criança. É nesta fase que se estabelecem as bases para o desenvolvimento intelectual, emocional e moral1

A relação emocional dos pais com o bebé será o primeiro passo para atingir essas vertentes do desenvolvimento.

Na verdade, desde cedo que as crianças necessitam de cuidados sensíveis, sendo que a troca de gestos afectivos e emocionais irá ajudá-las a compreender o mundo à sua volta, a formar as capacidades de segurança, confiança, empatia, solidariedade, e a noção do «eu». De acordo com Winnicott2, a mãe partilha com a criança pequena um pedaço do mundo à parte mantendo-o suficientemente limitado para que a criança não fique confusa e aumentando-o muito progressivamente de forma a satisfazer a capacidade crescente da criança fluir com o mundo.

afectos_2

A afectividade ajuda as crianças a quererem imitar e agradar às figuras com autoridade que amam e admiram, e a determinação de limites e estruturas que essas figuras impõem irá ajudá-las a aprender a se controlar quando as tentações são fortes. De facto, a aprendizagem mais importante nos primeiros anos de vida será aquela que é proporcionada pela interacção humana não tendo qualquer comparação com os objectos e os utensílios usados na aprendizagem.

afectos_3  Para que se favoreça esta interacção é fundamental que os pais tenham tempo para os filhos. É preciso que os pais se apaixonem e deliciem com o bebé. É fundamental que os peguem ao colo, sintam o prazer de os acarinhar, massajar, de envolver num abraço, de sentir-se como parte dele e interagir numa cumplicidade afectiva que respeita a iniciativa, o ritmo e as suas diferenças. Uma relação afectiva emocional e duradoira com um bebé, sem dúvida leva a uma melhor interpretação e consequente resposta. Aos seus sinais. Será tão fácil decifrar a tonalidade do seu choro, o jeito do seu olhar, a expressão da sua vontade, ou mesmo a intensidade do seu medo. Desta forma, à medida que o bebé irá crescer, os laços afectivos irão solidificar-se em raízes de entendimento, segurança, confiança e amor acompanhando-os toda uma vida. Poderemos dizer que esta é a chave para um desenvolvimento futuro saudável.

O aspecto básico de uma relação afectiva entre um bebé e quem cuida dele e que realmente o conheça é responsável por um número surpreendentemente grande de capacidades mentais vitais

O sentido de identidade, de vontade, de finalidade, de afirmação, e o começo do pensamento lógico causal advêm todos dessas maravilhosas interacções recíprocas. Podemos dizer que não é apenas o pensamento que se desenvolve a partir de interacções emocionais precoces, mas também um sentido moral do que é certo e do que é errado.

A capacidade de lidarmos com os sentimentos de uma forma positiva, construtiva, matura e compreender os sentimentos dos outros e de nos importarmos com aquilo que o outro sente, só pode advir da experiência de interacções afectivas, particularmente no seio familiar. Para Brazelton, é através das primeiras interacções afectivas que se estabelece o sentido de causalidade. Efectivamente, só podemos sentir empatia se previamente alguém tiver sido empático e afectuoso para connosco.

afectos_4 

Quando existem relações sólidas, empáticas e afectivas, as crianças aprendem a ser mais afectuosas e solidárias e acabam por comunicar os seus sentimentos, reflectir nos seus próprios desejos e desenvolver o seu relacionamento e amizade com outras crianças e adultos. Greenspan demonstrou que as relações e interacções emocionais também ensinam a comunicar e a pensar. Neste sentido, Brazelton complementa referindo que, as emoções são, de facto, os arquitectos, os dirigentes e os organizadores da nossa mente.

   

Estudos recentes concluíram que os padrões familiares que subestimam os afectos podem comprometer significativamente as capacidades cognitivas e emocionais do bebé. As interacções emocionais com bebés e crianças baseadas no carinho, afecto e apoio, contribuem para um desenvolvimento adequado do sistema nervoso central e formam as bases não só cognitivas como também a maioria das capacidades intelectuais da criança, incluindo a sua criatividade e a capacidade do pensamento abstracto5 Também para Jean Piaget, é irrefutável que o afecto desempenha um papel essencial no funcionamento da inteligência. Sem afecto não haveria interesse, nem necessidade, nem motivação. Vejamos o sorriso. Embora em cada sorriso exista uma componente motora, o que irá fazê-lo surgir é sem dúvida a emoção. A emoção de um sentir.

A pior coisa para um bebé é não ter alguém que o ame ou sentir insegurança em relação a essa pessoa. Estudos científicos comprovam que a criança que é criada com escassez de afecto, carinho e contacto físico, tem propensão para se deprimir e desenvolve-se mais lentamente.

 

afectos_5    Os estudos feitos por Spitz e John Bowlby revelaram ao mundo a importância que tem a relação afectiva na saúde física, emocional, social e intelectual das crianças e as péssimas consequências da sua ausência. Segundo constatou Brazelton, em orfanatos na Roménia onde havia ausência de cuidados afectivos ou de uma interacção social e intelectual, as crianças desenvolveram graves deficiências a nível físico, intelectual e social.

Infelizmente, sujeitos às tensões do dia-a-dia, os pais acham difícil ir ao encontro das necessidades dos filhos, esquecendo que muitas vezes, o que eles mais necessitam é apenas um pouco do tempo que eles muitas vezes não têm.

 

O panorama actual revela que, são cada vez mais as famílias que têm pouco tempo livre para os filhos devido ao facto de ambos os pais trabalharem para ajudar no orçamento familiar. Paralelamente, muitas vezes, quando os pais têm possibilidade de estar com os filhos, substituam essa interacção pelo ecrã do televisor. As crianças, particularmente os bebés, não deveriam ser deixadas sozinhas nos períodos em que estão despertas. Deveriam ter a presença de uma pessoa significativa para interagir com ela e descobrir quanto essa interacção pode ser maravilhosa.

afectos_6  É importante partilharmos das magias das crianças. Brincar com elas, rebolar pela relva, fazê-las sentir a doçura do cheiro da brisa sobre o rosto, sentir a textura da natureza, sentir a frescura da água sobre a pele, o perfume das flores sobre as mãos, a alegria de cantar e desafinar, a emoção de sorrir, de estar e partilhar, de tropeçar mas se erguer, lutar, e alcançar. Isso são gestos de amor que podem fazer com que as crianças cresçam mais felizes e saudáveis.

Os pais por vezes, pensam que é preciso lhes dar o mundo, mas muitas vezes, esquecem-se que para elas o mundo, são eles mesmos. E isso é o que eles verdadeiramente precisam.

As crianças que são privadas das vivências habituais que lhes permitiriam ser solidárias, afectuosas e meigas são frequentemente as que se encontram no seio de famílias com múltiplos problemas, tais como doenças mentais ou graves padrões anti-sociais por parte de ambos os pais ou de um deles. A causalidade destas situações reside na falta de oportunidades que lhes foram negadas para favoreçam a afectividade, a interacção ou a aprendizagem6

Mais grave que a escassez de alimento é esta carência afectiva. Uma carência que muitas vezes se vê, mas não se notifica. Os enfermeiros, em especial os de família, têm de estar alerta para estas situações de forma a poderem intervir junto dos pais, mostrando-lhes formas de contrariá-las. Não fazê-lo, é também uma forma de negligência.

Temos efectivamente de ajudar os pais a compreender que para o desenvolvimento das capacidades cognitivas e emocionais dos filhos, o que é realmente importante é a sensibilidade e a qualidade das interacções emocionais entre eles.

afectos_7 

  Por outro lado, em situações em que ambos os pais se vêm limitados pelo tempo laboral, é importante transmitir-lhes que estes têm o poder de ser criativos e tornar cada momento que passam com os filhos um momento único e rico em afectos. Mais que a quantidade, importa a qualidade do tempo com que verdadeiramente se está.

 As crianças são efectivamente o sorriso do mundo, tendo as mesmas a particularidade de ecoar o que de melhor existe em nós. Olhá-las e senti-las como seres fantásticos que são e futuros homens de amanhã que serão, faz-nos aperceber da responsabilidade que cada um de nós tem perante as mesmas. Elas são efectivamente uma pequena obra de arte, cujos traços, linhas e personalidade reflectem muito da atitude, delicadeza, saber e sentir dos seus pais sendo que cada um deles tem um timbre particular de definir a sua obra!

afectos_8

    Cuidar não é uma capacidade inata, é uma competência, por isso temos o dever de ajudar os pais para que se tornem mais      competentes num cuidar que muitas vezes começa com a doçura de um simples e meigo olhar.

 

Extraído e adaptado de: ORDEM DOS ENFERMEIROS - Guia orientador da boa prática

 – Promover o desenvolvimento infantil dos 0 aos 5 anos; Lisboa, Setembro 2010

Registe-se