Estratégias Disciplinares na Criança

Parte II

Estrategias

O grande objectivo da disciplina é educar uma criança para ser emocionalmente competente e moralmente desenvolvida mais do que ser uma criança obediente.

As estratégias de disciplina são modificadas à medida que a criança progride na aquisição de competências, estando directamente relacionada com a idade e com os diferentes estádios do seu desenvolvimento. As estratégias disciplinares utilizadas pelos pais deverão produzir na criança os resultados esperados, ou seja, cessar o comportamento inadequado, recuperar o controlo das emoções e acalmar-se, compreender o efeito que as suas ações têm nos outros e saber quais serão as suas consequências, reparar o mal feito e finalmente pedir desculpa e ser perdoada.
Importa referir que a prática disciplinar constitui um projecto a longo prazo e como tal, não poderá ser esperado que os comportamentos adequados da criança aconteçam da noite para o dia, sendo necessário por parte dos pais, muita dedicação, paciência e persistência, uma vez, que nenhuma estratégia atua por magia.

As crianças precisam de errar antes de acertar, os erros, os acidentes, os desajeitamentos são necessários para que se desenvolvam bem, aprendam, e se sintam confiantes.

Existem algumas estratégias disciplinares que poderão ser classificadas em três principais métodos: MÉTODOS POSITIVOS, MÉTODOS NEUTROS e MÉTODOS NEGATIVOS.

Estrategias

Os MÉTODOS POSITIVOS são aqueles que promovem o autocontrolo, a responsabilidade, a cooperação, o reconhecimento dos erros e o impacto que eles provocam nos outros. Por isso, a forma positiva de disciplinar vale a pena ser experimentada na educação das crianças. As estratégias positivas são as que deverão ser privilegiadas em primeiro lugar, atendendo que são eficazes a curto, médio e longo prazo, por respeitam a criança. Alguns dos métodos positivos englobam os avisos, fazer uma pausa, reparar, pedir perdão, planear, entre outros.

OS AVISOS ajudam a criança a estabelecer limites referentes a actividades de que não quer prescindir. Avisar antecipadamente a criança da mudança da actividade que irá ocorrer brevemente, os pais estão a ajudar a prepará-la para a frustração que daí advêm. “Daqui a 15 minutos vamos ter que arrumar os teus brinquedos para ires para a cama”. Passado 5 minutos o aviso deverá ser lembrado e finalmente no último momento é efectuado de forma firme "chegou a hora. Eu ajudo-te a arrumares as coisas". Os avisos preparam a criança para os acontecimentos seguintes e oferecem consistência à tomada de decisão dos pais, fazendo diminuir a resistência da criança e ajudam a preparar-se para a mudança. ESTA ESTRATÉGIA FUNCIONA APENAS SE FOR CUMPRIDA. Utilizar os avisos de forma consistente e firme não é o mesmo que usar a rigidez, o autoritarismo ou as ordens.

FAZER UMA PAUSA é também conhecido por diversos nomes como fora-de-jogo, o retiro, a paragem da acção, o tempo de reflexão, o descanso, entre outros. De qualquer modo, fazer uma pausa significa sempre um isolamento breve e imediato, num ambiente inofensivo e seguro. Para o efeito, poderá ser utilizado uma cadeira, o quarto da criança ou uma divisão da casa onde não existam muitos estímulos e permita que a criança se acalme, sem interacção dos pais. A criança para se controlar não precisa de ficar isolada mais tempo do que o necessário. O período de pausa deverá ser curto e proporcional à idade, sendo recomendado um minuto por cada ano. Assim três anos correspondem a três minutos de pausa. Depois da criança se acalmar, os pais devem conversar sobre a situação, calmamente de modo a fazê-la perceber que apesar de a deixarem sozinha não a estão a abandonar. Porém, uma criança forçada a sentar-se numa cadeira ou num canto da sala perante os olhares de um grupo de colegas poderá fazer com que se sinta humilhada.

OPORTUNIDADE DE REPETIR O COMPORTAMENTO CORRECTAMENTE é uma óptima maneira da criança readquirir o autocontrolo e sentir-se recompensada. Os pais ao ajudarem a criança a fazer as coisas bem, estarão a dar-lhe uma oportunidade de ser bem sucedida e competente. No entanto, insistir demasiado numa segunda tentativa poderá fazer que a criança se senta insegura nas suas capacidades. Assim, a tarefa poderá ser decomposta em pequenos passos, solicitando à criança para repetir apenas os passos que é capaz de fazer bem e elogiá-la por isso. Quando os pais reconhecem o comportamento positivo dos seus filhos, estes vêem-se como pessoas bem-sucedidas e boas. Esta autoimagem positiva motivará a criança a cooperar como também lhe proporcionará mais amor-próprio, confiança e sentido de competência.

OPORTUNIDADE DE REPARAR inclui as consequências das acções, reparar e pedir perdão. As desculpas e as reparações ajudam a criança a reconhecer os sentimentos dos outros e a respeitá-los. As crianças mostram-se muito mais empáticas quando os pais têm o hábito de chamá-las a atenção para as consequências do seu comportamento, "vê como ela ficou triste". Para ajudar a criança a estabelecer a ligação entre o seu comportamento e a necessidade de reparação, os pais devem escolher consequências que resultem da má acção. Uma consequência que não esteja relacionada com a acção poderá tornar-se confusa para algumas crianças impedindo-as de aprender a lição. As consequências para serem eficazes devem ser impostas no momento presente para que a criança compreenda a relação entre a acção e o resultado. As consequências escolhidas pelos pais devem afectar directamente a criança "até ao almoço se o jogo continuar desarrumado no sofá, vou ter que guardá-lo no meu quarto até à noite". Se a consequência demorar tempo demais (ficar sem o jogo a semana inteira) a criança acaba por perder o interesse no jogo, o que deixa de ser um incentivo a um melhor comportamento.

OBTER O PERDÃO é o propósito do pedido de desculpas e da reparação. As crianças ao saberem que podem ser perdoadas, aprenderão a perdoar-se a si próprias no futuro. O perdão possui um efeito libertador. O facto da criança se sentir perdoada, cria a esperança e o incentivo para melhorar o seu comportamento.

O PLANEAMENTO ensina a criança a planear e a resolver problemas, além de a ajudar a aprender a prestar atenção aos seus sentimentos. Muitos dos comportamentos inadequados da criança são previsíveis que aconteçam em determinados contextos. As situações que poderão provocar problemas devem ser discutidas previamente, no sentido de planear alternativas em conjunto, "eu sei que é difícil para ti, andares de carro durante tanto tempo. Que coisas podemos trazer para te manteres distraído?"

 O HUMOR constitui uma estratégia agradável de ajudar a criança a assumir o controlo dos seus sentimentos e a alterá-los, modificando por conseguinte os seus atos. Pronunciar alguma afirmação com sentido de humor sobre uma situação que está a aborrecer toda a gente, constitui uma forma de ver as coisas sob outra perspectiva, impedindo que os problemas assumam grandes proporções. Este método faz maravilhas, especialmente com as crianças mais pequenas. A diversão ou a distracção poderá ser uma estratégia promotora de boa disposição, no sentido de facilitar a cooperação por parte da criança.

As ROTINAS são essenciais na vida das crianças. Desde cedo precisam de ter horas para comer, dormir, brincar, estar com a mãe e com o pai etc. A criança habituada às rotinas responde bem a afirmações firmes como: "agora está na hora de fazer isto...?" ou "agora vamos fazer aquilo...". Normalmente as crianças são resistentes a mudanças, pois precisam de tempo para fazer as coisas num ritmo ordenado. As rotinas conferem repetição, ritmo, segurança e previsibilidade. A imprevisibilidade perturba a criança, mantendo-a em estado de alerta.

Os MÉTODOS NEUTROS poderão ser utilizados pontualmente visto que a sua eficácia é limitada a curto e a médio prazo. Estes métodos são apenas úteis algumas vezes e dependem da criança e da situação específica. São sobretudo indicados quando os métodos positivos se revelam em parte ineficazes ou quando a situação exige uma intervenção rápida (por exemplo quando a segurança da criança está em perigo). Exemplos de estratégias neutras incluem a perda de um privilégio, cancelamento de convites ou adiar actividades agradáveis, proibir jogos de computador e televisão, ignorar o mau comportamento etc.

Os MÉTODOS NEGATIVOS dizem respeito a todas as estratégias de disciplina que prejudicam a médio e a longo prazo a autodisciplina. Algumas das estratégias negativas eventualmente utilizadas na educação dos filhos incluem, as ameaças, as humilhações, os gritos e os sermões, as críticas e os castigos físicos. Estes métodos negativos desvalorizam a criança, destroem os laços afectivos entre pais e filhos e, produzem ressentimentos, raiva e hostilidade. Os sentimentos de inferioridade, rejeição e diminuição da autoestima induzidos por estes métodos poderão perdurar ao longo do desenvolvimento da criança, podendo até serem transportados para a vida adulta, afectando o seu equilíbrio emocional.
Para finalizar realço que a disciplina é um desafio para toda a vida. No entanto, os alicerces da aprendizagem começam muito cedo, a partir do momento que o bebé nasce. As experiências vividas nos primeiros anos de vida são determinantes para o futuro. Investir na primeira infância é preparar a criança para a vida. Para que venham a ser pessoas responsáveis, íntegras, conscientes, participativas e activas na sociedade e, acima de tudo que sejam felizes, as crianças devem ser orientadas com consistência, firmeza, muito carinho e amor.

Fernanda Pestana
Enfermeira especialista em saúde Infantil e Pediatria

Bibliografia:

  • Benoit, Joe- Ann (2001). Disciplina um desafio para os pais. Mem Martins: Edições Cetop.
  • Brazelton, T. B. & Sparrow, J. D. (2004). A criança e a disciplina. Lisboa: Editorial Presença.

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